Na passada segunda-feira, o Município de Odivelas esteve em grande destaque na capa do jornal Público, a propósito da introdução das refeições Halal nas escolas do concelho. Na ocasião, o jornal considerou o município de Odivelas como pioneiro a nível nacional.
Hugo Martins, Presidente da Câmara Municipal de Odivelas, considerou que “Este é um projeto pioneiro em Portugal e que muito nos orgulha, pois reforça Odivelas como um exemplo de sã convivência multicultural e inter-religiosa. Num momento em que as vozes extremistas sobem de tom, continuaremos, todos os dias, empenhados no respeito pela diversidade e na construção de um concelho mais inclusivo e solidário.
De seguida pode ler a reportagem do jornal público:
O recreio da escola básica D. Dinis n.º 1 é um pequeno retrato da população de Odivelas. Crianças de várias origens jogam à bola, andam a correr, a brincar. No agrupamento ao qual esta escola pertence, Adelaide Cabette, há 41 nacionalidades, espelho do concelho que tem meia centena de templos religiosos, entre eles três mesquitas.
É também na cantina da escola que se reflecte esta diversidade desde que foi introduzida recentemente mais uma opção na ementa, a possibilidade de as crianças muçulmanas escolherem uma refeição halal. Numa segunda-feira, o prato da maioria tem massa de lacinhos com hambúrguer de aves e um pouco de salada. No prato dos meninos muçulmanos há carne de aves com caril e arroz, e salada. Tal como entre quem come refeições tradicionais, também entre quem tem uma refeição halal há quem queira deixar comida para trás.
Neste momento a autarquia de Odivelas está a distribuir 120 refeições halal pelas escolas do concelho, mais do que as actuais 70 refeições vegetarianas pedidas. Para o agrupamento Adelaide Cabette vão 47 refeições halal e, dessas, 17 são para a escola D.Dinis, que tem o primeiro ciclo e a pré-primária.
“A comunidade islâmica aqui em Odivelas é muito significativa. A partir de agora podem comer com os colegas, muitos traziam de casa”, afirma o vice-director do agrupamento Paulo Gonçalves enquanto conduz o PÚBLICO pela escola. Não sabe quantas religiões há no agrupamento, porque não podem pedir esses dados devido a constrangimentos legais, mas sabe que há vários muçulmanos, evangélicos, sikh.
Maimunana, do quarto ano, originária da Guiné-Bissau, está lentamente a comer o seu caril de frango, tenta acabar o que está no prato. Despachada, comenta: “Não gosto quando é peixe, e a carne depende. Gosto dos douradinhos.” Fica contente por agora ter comida halal? “Mais ou menos…depende, se calhar pode ser uma comida que eu não gosto, tipo puré.” Prefere a comida de casa.
Com 10 anos, sabe que não pode comer qualquer carne: “Tenho um talho halal ao pé da minha casa onde a minha mãe compra a carne. Porque eu não posso comer comida dos outros talhos”, diz. Halal “é a comida para os muçulmanos comerem”, explica, quando perguntamos. E mais não sabe, ri-se.
Halal quer dizer o que é permitido para os muçulmanos em várias áreas da vida. Na alimentação um muçulmano não pode comer carne de porco. Em relação a outras carnes, para serem halal é preciso que quem mata o animal seja muçulmano, que pronuncie o nome de Deus ao fazê-lo, e que o animal seja degolado nas artérias principais, explica o imã da Mesquita de Lisboa, Sheik Munir. Mas há mais restrições; só é halal o peixe com escamas, a preparação da comida também obedece a determinados preceitos (não deve estar em contacto com outros alimentos não halal), por exemplo.
Umas filas à frente de Maimunana está o jovem Braima, igualmente da Guiné-Bissau, do mesmo ano. Queixa-se que a comida “está mal feita”: “É muito amarga”, afirma, enquanto franze o sobrolho.
“O caril é muito forte para crianças”, comenta o vice-director do agrupamento, Paulo Gonçalves. Uma funcionária acrescenta: “Mas se estiverem habituados em casa comem.”
Há, de facto, quem goste. No grupo do 3.º ano, entre os meninos de origem do sudeste asiático, a adesão é maior. Maria olha para o colega muçulmano que entusiasticamente acaba o prato. Não sabe por que é que ele, como outros meninos, têm uma refeição diferente da dela; explicamos que é por motivos religiosos. “Acho bem. Cada um tem direito a comer, se não puderem comer têm que comer a sua comida”, afirma.
Sentadas uma ao lado da outra, Inayah e Syeda, com origens no Paquistão, estão a comer com apetite. Respondem logo que sim quando se pergunta se o almoço está bom. Na quarta-feira a ementa halal era bolonhesa com carne de vaca, na sexta-feira estava programado arroz de pato, mais à frente havia chili de carne ou empadão de frango.
Com uma população de 150 mil pessoas segundo o Censos 2021, Odivelas é um dos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa (AML) onde mais se concentram muçulmanos. Os dados sobre religiões do mais recente Censos ainda não estão disponíveis, mas em 2011 viviam em Odivelas 9% do total de muçulmanos – era, porém, em Sintra e Lisboa que se concentrava a maioria com 29%.
Segundo o estudo Identidades religiosas e dinâmica social na Área Metropolitana de Lisboa, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, os muçulmanos representam 0,9% da população nesta área geográfica; dos muçulmanos, 33,3% são de origem asiática e 66,7% africana.
Ter refeições halal na escola é “uma maneira dos outros perceberem que há diferenças entre as pessoas e aceitarem, e ainda por cima à hora da refeição que é de confraternização”, continua Paulo Gonçalves. “Embora os outros meninos não conheçam bem as regras, não conheçam a religião, nem consigam distinguir um muçulmano isto é muito importante.”
Antes desta nova modalidade, a escola já proporcionava alternativas aos alunos que não comem carne de porco ou de vaca; agora a refeição halal é um novo passo.
Formação de funcionários e cozinha
Para servir esta nova refeição houve formação na empresa que fornece as refeições, a Gertal. A solução encontrada pelo Instituto Halal de Portugal, parceiro da autarquia nesta iniciativa e entidade que certifica os produtos, foi servir refeições congeladas. Segundo explica um dos responsáveis do Instituto, Azhar Vali, era difícil fazer chegar logisticamente todas as refeições a tempo porque os alunos estão espalhados por várias escolas por isso recorreram à congelação. Nascido em Portugal, o sheik lembra-se de levar comida de casa para a escola. Mas onde estudava havia um par de muçulmanos, muito diferente do que acontece hoje. “A refeição halal é muito importante para um muçulmano. Ter uma refeição halal na escola é importante, e ser certificada é importante para dar segurança de que é mesmo.”
Susana Santos, vereadora com o pelouro da Educação na autarquia de Odivelas, explica que o impulso foi dado pela comunidade islâmica do concelho, que é “muito significativa” e alertou para o facto de as crianças muçulmanas terem de comer uma refeição vegetariana quando não o são porque não podiam comer carne sem ser halal. Trata-se de uma questão de “liberdade religiosa” e de dar a possibilidade “a toda a gente de expressar a sua liberdade”. “Chegámos à conclusão que a câmara podia disponibilizar refeições halal. É uma questão de justiça ter as crianças à mesma mesa a comer e não serem obrigadas a trazer de casa. É esta igualdade de oportunidades que queremos alcançar, e não há maior espelho de igualdade de oportunidades do que todas as crianças estarem sentadas à mesma mesa.”
Além dos almoços, também os lanches são halal (porque há compotas com produtos de origem animal, por exemplo).
Por enquanto há 150 alunos inscritos, mas os muçulmanos são muito mais, afirma Mahomed Tayob, presidente da comunidade islâmica de Odivelas, que esteve ligado a este processo. Representante de uma população que está no concelho há pelo menos 50 anos, inicialmente originária de Moçambique e Guiné-Bissau, Tayob afirma que há vários anos recebia queixas de pais sobre o facto de os filhos não poderem tomar refeições na escola. Este foi um processo que levou o seu tempo, afirma. Começou em 2016 com a possibilidade de as crianças levarem a comida de casa. “Além da importância religiosa, há a integração das nossas crianças com a comunidade escolar às refeições”, comenta, sobre o significado.
A introdução de refeições halal implicou algumas mudanças e formação. A comida halal “tem que ser confeccionada à parte, não pode haver qualquer dúvida”, comenta o vice-director.
O facto de as refeições estarem congeladas “atrapalhou” um bocadinho a dinâmica no primeiro dia, “mas agora já apanhámos o ritmo”, afirma Fernanda Freixinho, que está a servir o almoço aos miúdos. “Não sou a favor ou contra mas acho que muitos deles não estão a comer”, comenta.
Célia Leite, gestora operacional da Gertal, a empresa que confecciona, refere que trabalharam com a dietista da autarquia. A comida tem de ser aquecida no microondas, é necessário tirar a temperatura para garantir que é servida em condições. “Temos isto organizado, a câmara manda um mapa de quantos meninos estão em cada escola, manda a ementa para a fábrica e nós distribuímos”. A responsável considera que estão numa primeira fase, ainda há “algumas dúvidas”, com alguns meninos a terem receio de que a comida não seja halal. “Tem que haver também trabalho dos pais em casa”, afirma. Alguns não gostam como vimos. “Que não estão a comer tudo, não estão. Mas se for a uma escola e olhar para os pratos também há muitos meninos que não comem a outra comida”, comenta. “Mas estamos no bom caminho.”
Ganhar confiança é um passo importante. Por exemplo, o pai de Inayah ainda pede para certificar que a comida servida é sempre halal. Supervisor num contact center, Mohammad Akber, de 45 anos, originário do Paquistão e a viver há 13 anos em Portugal está “muito contente” porque Inayah e as duas outras filhas que estão no jardim-de-infância não podiam comer carne na escola mas agora sim. Fez questão de falar com os professores para garantir que comiam, de facto, halal. “Dei o recado à Inayah para perguntar sempre se o que está à frente é halal.” As outras duas filhas são demasiado pequenas para o conseguirem fazer sozinhas.
